Cemitério da Recoleta: lendas que você precisa conhecer

por Priscyla Fideles Compartilhe

O Cemitério da Recoleta é um dos mais famosos pontos turísticos de Buenos Aires. Pode parecer meio mórbido um passeio envolvendo túmulos e mortos, mas a verdade é que muita gente importante foi enterrada lá. Além disso, o lugar é considerado um dos cemitérios mais bonitos do mundo.

Confesso que quando visitei pela primeira vez não entendi direito o motivo de tanto alvoroço em relação ao lugar. Fiquei até incomodada com aquela quantidade enorme de gente tirando foto com os túmulos na maior felicidade enquanto eu só conseguia pensar em como uma tumba podia ser mais bonita que a minha casa e definitivamente maior que o meu quarto.

Enfim, a verdade é que eu não tinha pesquisado muito sobre o Cemitério da Recoleta e acabei ficando um pouco frustrada (sempre pesquisem antes de visitar um lugar!).

Quando voltei da viagem fui correndo procurar algumas coisas sobre o cemitério e acabei descobrindo que em alguns casos, existem quartos subterrâneos que remontam o quarto da pessoa falecida. Não sei vocês, mas eu achei chic.

Em meio a isso tudo, acabei descobrindo algumas lendas e curiosidades sobre o cemitério também. Depois de ler eu tive certeza de que se eu tivesse pesquisado antes, com certeza teria amado o passeio – ou ficado apavorada. 😅

Vamos então as lendas que você precisa conhecer antes de viajar para Buenos Aires.

Rufina Cambaceres, a garota que morreu duas vezes

Vários sites brasileiros e espanhóis contam a história de Rufina, jovem de 19 anos, filha do escritor Eugenio Cambaceres. A lenda conta que no dia do aniversário de 19 anos da jovem, sua mãe iria lhe apresentar a sociedade. Mas antes de sair de casa ela foi encontrada toda dura e fria no chão do quarto.

O médico teria constatado que ela tinha tido uma síncope cardíaca e na manhã seguinte ela foi enterrada no Cemitério da Recoleta.

O único problema é que aparentemente, ela não tinha morrido. Isso porque dias depois o jardineiro do cemitério teria encontrado o caixão aberto e o corpo da jovem de lado. As autoridades trataram como uma tentativa de roubo devido as jóias com as quais ela foi enterrada, o detalhe é que nenhuma jóia teria sido retirada do corpo.

Além disso, foram encontradas marcas de arranhões na parte interna do caixão, 😮 levando muita gente a acreditar que Rufina tivesse tido na verdade uma crise de catalepsia.

A jovem acabou se tornando uma das lendas mais famosa de Buenos Aires, a Dama de branco (mas tem outra, viu?), depois que um ator afirmou ter visto ela caminhando perto de seu túmulo.

Na entrada de seu mausoléu tem uma estátua de Rufina com a mão na maçaneta da porta.

cemitério da Recoleta

Luz Maria, a dama de branco que te leva pra um café

Eu falei que tinha outra dama de branco no Cemitério da Recoleta, né? Nessa história aqui – que também é muito famosa em Buenos Aires –, a personagem da vez é Luz Maria, uma menina que morreu aos 15 anos, com leucemia. Era filha do dramaturgo Enrique García Velloso. Depois de sua morte, a mãe, a beira da loucura, passou dias dormindo em cima da tumba da filha.

Anos depois de sua morte, surgiu a lenda de uma menina que se encontrava com garotos, levava eles para um café, reclamava do frio e pegava a jaqueta deles emprestada. Ao longo da noite, ela derrubava café na jaqueta e eles insistiam que ela levasse a jaqueta consigo para “garantir um segundo encontro”. Ela dizia aos garotos o seu nome e ia embora.

Quando os garotos iam atrás dela, descobriam que Luz já estava morta há anos. Desesperados, eles iam até o túmulo da menina no Cemitério da Recoleta e encontravam lá suas jaquetas. Acho que era nesse momento que eles desistiram do segundo encontro, né?

A história de amor mais trágica do Cemitério da Recoleta

A história de Elisa Brown poderia facilmente ser um livro do Nicholas Sparks. A jovem de 17 anos, era filha do Almirante William Brown e estava noiva do comandante Francis Drummond. No ano de 1827, a jovem aguardava ansiosa o retorno dos dois, que partiram para uma batalha naval contra o Brasil no dia 7 de abril.

Durante a batalha, o navio em que Drummond estava, ficou sem munição. Ele precisou se dirigir até outro navio para pedir mais munição. E então foi atingido por uma bala de canhão no fêmur, horas mais tarde, ele faleceu.

Elisa teria ficado transtornada e meses mais tarde, se afogou nas águas do Rio Plata usando seu vestido de casamento. É claro que isso é a lenda, mas existe a história de que o afogamento foi na verdade um acidente e não suicídio. Mas adivinha qual das história Nicholas Sparks, contaria? 🤔

Francis e Elisa foram enterrados inicialmente no Cemitério do Socorro, mas anos mais tarde os restos mortais da jovem foram transferidos para o Cemitério da Recoleta e armazenados em uma urna de bronze feita com um dos canhões da embarcação usada por Francis na batalha.

Fiel companheiro, na vida, na morte e além

Mesmo tendo conhecido o Cemitério da Recoleta sem conhecer a história, eu me lembro perfeitamente do túmulo de Liliana Crociati. Ele é bem diferente, com uma estátua de Liliana e seu cachorro. Talvez tenha sido marcante pra mim por causa do cachorro, ou porque tinha um gato perto da estátua – assustadora – da falecida.

A história dela também é bem trágica. Durante sua lua-de-mel na Áustria, o quarto onde Liliane estava hospedada foi atingido por uma avalanche. Segundo os jornais locais, seu marido foi socorrido em cerca de 15 minutos, mas ela só foi encontrada depois de 1 hora de busca, já sem vida.

Dizem que seu cachorro Sabu, estava em Buenos Aires e faleceu no mesmo dia que a dona. Mas isso nem é o mais estranho. Lembra do gato que eu falei no início da história? Então, tem gente que acredita que ele é a reencarnação do cachorro Sabu. Dizem que ele raramente sai do pé da estátua e fica raivoso quando alguém chega muito perto. 😯

Cemitério da Recoleta

Uma amizade curiosa no Cemitério da Recoleta

Esse caso não é bem lá uma lenda assustadora, mas me deixou bastante intrigada. Três amigos: Alberto Navarro Viola, Benigno Baldomero Lugones e Adolfo Emiliano Mauricio resolveram erguer um monumento em homenagem a amizade deles. Pediram concessão do governo para colocar na cidade, mas foi negado.

Eles teriam descoberto então que era possível fazer um monumento no cemitério. Aí que começa a parte estranha. No dia 21 de Outubro, Adolfo faleceu em Buenos Aires, e 6 dias depois, Benigno Baldomero também faleceu, em Paris. No ano seguinte, no dia 3 de agosto, foi a vez de Alberto Viola, que também morreu em Buenos Aires.

A família dos jovens (que tinham de 25 a 27 anos) então, resolveu construir o monumento no Cemitério da Recoleta, em homenagem aos amigos, que foram enterrados em diferentes pontos do cemitério. E assim, a amizade dos três ficou eternizada ali.

Até que o ódio nos separe

Salvador María del Carril foi vice presidente da Argentina entre 1854 e 1860. Era casado com Tiburcia Domínguez, que – segundo boatos – era a louca das compras. Certa vez, o marido, repreendeu a mulher publicamente pelo comportamento consumista, o que deixou ela com tanta raiva, que os dois ficaram 30 anos sem se falar.

Quando Salvador morreu, Tiburcia ordenou a construção de um mausoléu enorme, com uma estátua do marido, olhando para o sul. E pouco antes de morrer, seu último pedido foi que seu busto fosse colocado de costas para a estátua do marido, apontando para o norte. Ela afirmou que nunca mais queria olhar na mesma direção que o marido.

É meus amigos, é isso que eu chamo de ranço!

Ansioso pela morte

Acho que essa é a história mais surreal que eu encontrei envolvendo o Cemitério da Recoleta. O personagem da vez é David Alleno, que trabalhava como coveiro no cemitério e tinha o sonho – PASMEM – de ser enterrado lá. Cada doido com a sua mania não é isso que dizem?

Acontece que o Cemitério da Recoleta, sempre foi um lugar para a alta sociedade, era caríssimo conseguir um cantinho para ser enterrado ali. Mas David não poupou esforços para conseguir o dinheiro, passou a diminuir as despesas e economizar cada centavo para conseguir realizar seu sonho.

A ideia inicial era construir seu mausoléu com suas próprias mãos, mas os padrões estéticos exigidos pelo cemitério, fizeram com que o coveiro fosse ao outro lado do mundo encomendar uma escultura dele mesmo, com seus equipamentos e tudo mais. Um detalhe intrigante é que ele teria colocado o ano da sua morte na lápide quando encomendou.

Depois que tudo já estava pronto, David ficou tão ansioso que foi pra casa e se matou, assim ele conseguiu enfim “viver” seu sonho – só Deus pode te julgar, meu caro David.

O Cemitério da Recoleta ganhou outra cara agora, né?

cemitério da Recoleta

Com todas essas histórias o Cemitério da Recoleta com certeza ganhou outra cara. Pelo menos pra mim ele ficou muito mais interessante. Se você ficar interessado em conhecer mais histórias do cemitério, vale a pena contratar um guia e fazer a visita guiada. Assim, além de admirar os túmulos, você também vai ter uma aula de história ao ar livre.

E se ainda assim você achar um passeio no cemitério meio mórbido, não se preocupe, em uma cidade como Buenos Aires, o que não faltam são atrações. Confira nosso texto e saiba o que tem de melhor pra fazer em Buenos Aires.